quinta-feira, novembro 29, 2012

Nhanderú está vindo para conversar

A situação indígena no Mato Grosso do Sul

(este texto foi escrito primeiramente para o grupo L.U.C.I.D.O.S., uma iniciativa Anonymous da cidade de Jacareí, interior de São Paulo e posteriormente ampliado para o blog tupã-y)

Estou escrevendo esse texto para tratar de um assunto que ultimamente tem ganhado mídia no Brasil e fora dele devido à carta de "suicídio coletivo" da tribo indígena Guarani-Kaiowá: a questão indígena brasileira.
Como tudo dentro da mídia, a carta-suicídio é só a ponta do iceberg. O Mato Grosso do Sul é um estado largamente conhecido pelo sistema de plantation (cana-de-açucar) e do corte bovino em larga escala, simplificando, o MS é a verdadeira terra do agronegócio. E batendo de frente com os fazendeiros, estão os grupos quilombolas, a luta camponesa e as tribos indígenas (Guarani, Kadwel, Kaiowá, Terena, Boró, entre outros.)
Aqui, os indígenas são retirados de suas terras e jogados à margem das estradas, para serem um peso para o DNIT; sofrem com um controle feito pelos fazendeiros de quem entra e quem sai de uma aldeia (imagina o que é ter alguém na porta da sua casa todos os dias que não deixa simplesmente que você e sua família possa sair e entrar a hora que quiser?); não tem a permissão de plantar (sim, grupos indígenas sul-matogrossenses como os Kaiowás* não têm como plantar por estarem habitando em espaço de mata virgem protegida e sobrevivem apenas de caça e cestas básicas –isso quando as cestas básicas chegam à aldeia-); lideranças são mortas a torto e a direito (como Marçal de Souza e mais recentemente Nisio Gomes, além de muitos outros) mulheres indígenas são estupradas (a última que se teve notícia, M.A., foi violentada por seis pistoleiros que mantiveram relações sexuais com ela enquanto uma faca era pressionada contra o seu pescoço e depois a questionaram sobre as lideranças do Atyguasu*) entre tantas outras atrocidades.
Eu julgo difícil uma pessoa que não viu como eu vi no útlimo Tribunal Popular da Terra* que aconteceu em Dourados-MS, um indígena falando do que a terra representa para eles, saber o que é se sentir mesquinho e pequeno. Eles falam com tanta propriedade da terra, com tanto carinho, que é como se a terra fosse (e por considerações posteriores eu acredito que seja mesmo) um pedaço da alma deles, o Tekohá (palavra guarani que é parcamente traduzida como ‘terra’) é pra eles um pedaço sagrado de uma terra que foi prometida à eles antes mesmo dos brancos chegarem aqui, é um fragmento da alma deles. Mas eu também não quero fazer com que vocês só se levem pela emoção.
O fato é que muita luta ainda precisa ser travada, e não só neste estado. Mais debates sobre a questão da terra devem ser levantados, mais preconceitos devem ser quebrados. É necessário que se faça ouvir a voz dessa minoria (e não só dela, como também as questões camponesas, ciganas, quilombolas, sem terra, sem teto e por aí vai)

O índio não é um preguiçoso. O fato dele apresentar a RESISTÊNCIA ao escravismo branconão tem nada a ver com a preguiça. O indígena quer trabalhar na sua terra, quer cultivar a sua cultura, nao ser obrigado a trabalhar na retirada de cana de açucar porque o “desenvolvimento” pede o uso do etanol e o desgaste de suas terras.
O indígena foi marginalizado por todo um ”””desenvolvimento sustentável”””, uma economia que só pintou o capitalismo de verde.

Creio que seja consenso aqui que o poder e o capital andam juntos (ou seja, quem tem dinheiro tem poder –debate muito, muito extenso-), e espero que vocês parem um pouco para refletir que o Agronegócio dá muito dinheiro, logo, muito poder. Podem imaginar quantos erros foram cometidos pela nossa ""justiça"" por causa da Economia Verde, por causa do Etanol? Conseguem imaginar quantas mãos foram "molhadas" de um dinheiro saído de terra e sangue indígena?  Espero que nesta altura vocês tenham percebido como a questão da terra tem a ver com todo o resto do ‘sistema’. E cada dia mais, as pessoas são removidas de seus lares. Lembram-se de Pinheirinhos? Xingu (Belo Monte de bosta)? ‘Limpeza’ das favelas do Rio? Dia-após-dia, as pessoas são retiradas de suas casas. A questão da terra não é uma pauta puramente indígena. Não só as terras indígenas quanto à camponesa, à quilombola, à favelada(sic).

A luta não acaba quando a ""justiça"" se sente pressionada a devolver a terra a essas 170 pessoas de uma única tribo. A luta não acaba enquanto a verdadeira Justiça não for feita.

Nós precisamos de todos na luta contra o Agronegócio (agronegócio MATA, agronegócio FEDE, agronegócio é a razão desses grupos indígenas estarem na situação que estão e estiveram), contra a Economia Verde (o capitalismo disfarçado continua sendo o capitalismo, não se deixem enganar) e a favor da Reforma Territorial.

Somos todos Guarani, Somos todos Kaiowá, Somos todos Terena, Somos todos Boró, Somos todos Kadwel, Somos todos Kalapalo, Somos todos Nhandevá, Somos todos Pinheirinho, Somos todos filhos da terra. Somos todos Anônimos. E estamos todos Lúcidos.

    

Três gerações de Indígenas Terena e a cultura sul-matogrossense do Tereré.
Foto por: Everson "Pyro" Tavares.
*DNIT - Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte.
*Eu, Carolina Costa Silva, uso a tribo Kaiowá no meu texto pois foi com a tribo Kaiowá de Larangeira(sic) com quem eu tive contato, quero deixar claro que há uma série de tribos que vivem de formas diferentes, talvez melhor talvez pior.
*Atyguasu é a reunião dos povos Guarani-Kaiowá que tira as deliberações para as lutas da causa indígena desta tribo.
*Tribunal Popular da Terra é um encontro e reunião entre as minorias que sentem na pele os efeitos das problemáticas quanto à terra (camponeses, quilombolas, indígenas). Particularmente falando, eu tive uma sorte imensa de ser convidada, junto à pessoas do movimento estudantil, a participar do último TPT.

A copa não é futebol

Meses atrás, na Rio +20, eu tive uma conversa que mudou meu modo de pensar sobre a questão da copa. Eu confesso, eu fui uma jornalista que queria cobrir a copa, até conhecer esse rapaz. De começo uma conversa inocente, e a semente foi plantada na minha cabeça. Hoje, o simples fato de lembrar me faz sorrir.

O sol se despedia do Aterro do Flamengo. Cansada, eu já pensava em como faria para chegar à UFRJ. Umas amigas estavam carregando o celular quando uma série de maquetes me chamaram a atenção. Elas eram perfeitas: Do bondinho, do Aeroporto, do Maraca. O avião decolava, o bonde subia, um helicóptero passava e as luzes das maquetes estavam todas acesas. Com um sorriso de quem tinha ganho uma parte do dia, perguntei pelo responsável, já elogiando. O rapaz, simples, educado, me deu um sorriso largo e disse que ele era acadêmico de Geografia da Universidade e que aquele projeto mostrava espaços do Rio de Janeiro quando seu próprio espaço, uma favela aos arredores do Maracanã, era tirada das mãos dele. "E pra onde eles querem que você vá?" eu perguntei, caindo na tentação de não correr para o meu bloquinho de jornalista para aproveitar a conversa no egocentrismo de quem aprende uma nova estória pelo simples prazer de ouvir. "Longe. Querem esconder tudo o que eles consideram feio e fingir que não existe pobreza." ele me disse, procurando minha reação. Tudo o que eu fiz foi fixar os olhos naquela imensa maquete do Maracanã, com suas luzes acesas. "Eles vão nos remover como também vão remover um monte de outras favelas, para deixar o Rio bonito, pra fazer com que o gringo suba no funk da Rocinha protegido".
Aquilo martelava na minha cabeça. Oras, Era tão desumano quanto natural, mas eu não conseguia entender aquilo. Poxa, nós somos o país do futebol-arte, não é mais que natural que a copa seja aqui? não vai fazer bem trazer uma porrada de gringo pra conhecer a cultura brasileira? Não, não vai fazer bem, foi o que eu concluí depois de conhecer aquele rapaz. Era tão óbvio, estava tão na minha cara, e eu não tinha percebido.
A copa não é futebol. Não se trata disso. A copa é uma brincadeira entre os poderosos e seus patrocinadores, um jogo de marketing do tamanho da ionosfera para esconder as remoções, as 'limpezas urbanas' e colocar mais dinheiro dentro das grandes empreiteiras. Para aquele rapaz, de quem infelizmente não lembro o nome mas para sempre vou me lembrar do sorriso, o maior problema era a mudança de rotina, mas com certeza para outros havia mais em jogo. O que dizer que há em jogo para as pessoas da Vila Autódromo, que passaram mais de uma década sofrendo ameaças de remoção por residirem ao lado de um bairro de luxo que precisa ser mais valorizado bem à frente da nossa excelentíssima Vila Olímpica. O que dizer que há em jogo quando os poderosos do mundo inteiro tomam chá e decidem como vão f*der com a sociedade e chamam isso de Economia Verde enquanto a menos de 5 kms as pessoas da Vila Autódromo precisam mostrar um comprovante de endereço  para militares para ir e vir de suas casas? A copa não é futebol. A copa é negócio, é dinheiro. O que vai sobrar do Fuleco, nosso excelentíssimo mascote da coca-cola copa, são os buracos.

 Eu sou contra a remoção. Eu sou contra a Copa-Cola. Eu sou Vila Autódromo.

Não assista futebol, jogue.
Foto por: Bruno Alencastro / Agência RBS

Não podemos ficar caladxs


“Venho de muito longe, mas não há longe em uma situação em que um povo está sujeito ao genocídio. Portanto, neste aspecto, eu também sou guarani kaiowá, sou brasileiro e estou sendo vítima do mesmo genocídio. Não posso ficar calado"

Mia Couto nasceu na Beira, em Moçambique, em 1955, e é um dos principais escritores africanos.

Somos todxs

Eu sou Guarani, sou Kaiowá, sou Tupi, sou Kalapalo, sou da terra, da pele vermelha , do corpo pintado de urucum. Sou do quilombo, da senzala, sou dessa terra que me acolheu, da pele negra, do corpo suado de trabalho. Sou de longe, portuguesa, italiana, árabe, nipônica, vim de navio, com a esperança estampada no corpo, com o medo do mar e a ansiedade do novo. Eu plantei, eu colhi, eu construí. Eu almejei a ordem e o progresso. Eu lutei. E eu continuo lutando. Porque eu sou do Brasil que tem em sí, todas as etnias e todas as lutas do mundo.


Foto por: Caroline "Caco" Cardoso.