O sol se despedia do Aterro do Flamengo. Cansada, eu já pensava em como faria para chegar à UFRJ. Umas amigas estavam carregando o celular quando uma série de maquetes me chamaram a atenção. Elas eram perfeitas: Do bondinho, do Aeroporto, do Maraca. O avião decolava, o bonde subia, um helicóptero passava e as luzes das maquetes estavam todas acesas. Com um sorriso de quem tinha ganho uma parte do dia, perguntei pelo responsável, já elogiando. O rapaz, simples, educado, me deu um sorriso largo e disse que ele era acadêmico de Geografia da Universidade e que aquele projeto mostrava espaços do Rio de Janeiro quando seu próprio espaço, uma favela aos arredores do Maracanã, era tirada das mãos dele. "E pra onde eles querem que você vá?" eu perguntei, caindo na tentação de não correr para o meu bloquinho de jornalista para aproveitar a conversa no egocentrismo de quem aprende uma nova estória pelo simples prazer de ouvir. "Longe. Querem esconder tudo o que eles consideram feio e fingir que não existe pobreza." ele me disse, procurando minha reação. Tudo o que eu fiz foi fixar os olhos naquela imensa maquete do Maracanã, com suas luzes acesas. "Eles vão nos remover como também vão remover um monte de outras favelas, para deixar o Rio bonito, pra fazer com que o gringo suba no funk da Rocinha protegido".
Aquilo martelava na minha cabeça. Oras, Era tão desumano quanto natural, mas eu não conseguia entender aquilo. Poxa, nós somos o país do futebol-arte, não é mais que natural que a copa seja aqui? não vai fazer bem trazer uma porrada de gringo pra conhecer a cultura brasileira? Não, não vai fazer bem, foi o que eu concluí depois de conhecer aquele rapaz. Era tão óbvio, estava tão na minha cara, e eu não tinha percebido.
A copa não é futebol. Não se trata disso. A copa é uma brincadeira entre os poderosos e seus patrocinadores, um jogo de marketing do tamanho da ionosfera para esconder as remoções, as 'limpezas urbanas' e colocar mais dinheiro dentro das grandes empreiteiras. Para aquele rapaz, de quem infelizmente não lembro o nome mas para sempre vou me lembrar do sorriso, o maior problema era a mudança de rotina, mas com certeza para outros havia mais em jogo. O que dizer que há em jogo para as pessoas da Vila Autódromo, que passaram mais de uma década sofrendo ameaças de remoção por residirem ao lado de um bairro de luxo que precisa ser
Eu sou contra a remoção. Eu sou contra a Copa-Cola. Eu sou Vila Autódromo.
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| Não assista futebol, jogue. Foto por: Bruno Alencastro / Agência RBS |

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